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domingo, 15 de abril de 2012

Antes do Rodoanel, bichos serão expulsos

Com buzinas e apitos, especialistas pretendem fazer o remanejo da fauna de Mata Atlântica no Trecho Norte, buscando reduzir impacto ambiental
Em parceria com RODRIGO BURGARELLI

A empresa Desenvolvimento Rodoviário S.A. (Dersa) vai contratar uma equipe técnica para afugentar bichos nativos na região de Mata Atlântica por onde passará o Trecho Norte do Rodoanel. A concorrência pública para a escolha da empresa está marcada para sexta. A ganhadora terá 36 meses para executar o trabalho.
De acordo com o Estudo de Impacto Ambiental produzido para o empreendimento, há na região 354 espécies de anfíbios, répteis, mamíferos e aves, além de uma infinidade de insetos. “Muitas espécies detectadas na região são extremamente sensíveis às alterações em seu hábitat”, comenta o biólogo Luís Silveira, curador das coleções ornitológicas do Museu de Zoologia da Universidade de São Paulo (USP).
A ideia é que os bichos sejam espantados da área afetada, buscando com isso reduzir o impacto sobre a vida selvagem, principalmente no caso de mamíferos de médio e grande porte e aves. “A partir de procedimentos sincronizados e direcionados, a fauna com maior poder de deslocamento passa a utilizar outras áreas”, detalha o documento da Dersa que especifica o serviço. Para o afugentamento, a equipe técnica vai usar equipamentos como buzinas e apitos.
No caso de animais com menor mobilidade, estão previstos resgates e remoções. Os bichos que forem mortos no processo devem ser destinados para estudos científicos. “Sem dúvida há risco de desequilíbrio ambiental”, admite Marcelo Arreguy Barbosa, gerente da divisão de gestão ambiental da Dersa. “Por isso temos uma equipe para fazer o monitoramento durante a obra.”
O presidente da Dersa, Laurence Casagrande, acredita que o trecho mais preocupante em relação ao impacto ambiental é a região próxima da Serra da Cantareira. “O restante já é uma área composta por terrenos rurais, que não têm mais cobertura de floresta”, afirma. “Mas nossa política é de reduzir os danos.”
Outro trecho. Entre 2009 e 2010, o biólogo Silveira coordenou uma equipe que fez estudos ambientais na área do Trecho Sul do Rodoanel. Participaram desse projeto 25 profissionais do Museu de Zoologia. Ali, se depararam com muitos animais em risco de extinção. “A região ainda abriga populações importantes de espécies, como a onça-parda, o macuco, a jaguatirica, o sagui-da-serra-escuro, os passeriformes cigarra-verdadeira e pixoxó, entre tantos outros”, diz o pesquisador.
Conforme o Estado revelou em abril de 2009, mais de cem animais silvestres morreram nas obras de construção do Trecho Sul em áreas de Mata Atlântica. Eram veados catingueiros, bugios, preguiças de três dedos, lagartos teiús, gambás, cobras, corujas orelhudas.
Para Silveira, o melhor jeito de diminuir a interferência na fauna é contemplar esse impacto na definição do traçado do Rodoanel. “Quanto menor a interferência na floresta, melhor. E, de maneira similar ao já realizado no Trecho Sul do Rodoanel, o monitoramento de fauna continua sendo um componente fundamental”, alerta. De acordo com o presidente da Dersa, a cada nova obra a companhia melhora seus métodos. “Aprendemos fazendo. Às vezes, errando. Mas de cada processo tiramos lições importantes”, diz.
Reportagem publicada originalmente na edição impressa do Estadão, dia 15 de abril de 2012

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